domingo, 24 de abril de 2016

Reflexão sobre a vida prática e a formação de vínculos na sociedade atual




Vida prática
Possibilidade de resgatar o que é próprio do humano




Juliana Boff A. Cruz


Maria Montessori tem como uma das pedras angulares de seu método a proposta do trabalho de vida prática. A criança, desde sua tenra idade é estimulada a agir sobre o meio, a atuar como protagonista de sua vida, a partir da interação com materiais concretos que oportunizam o desenvolvimento de movimentos por meio de atividades cotidianas.

Passando de relações efêmeras para vínculos duradouros

Nesta reflexão, gostaria de destacar um aspecto subliminar que o trabalho com a vida prática tem a possibilidade de desenvolver. Como afirma Zigmunt Baulmann, vivemos um tempo de relações efêmeras, rápidas, descartáveis, onde cada tem como fim último a satisfação de seu desejo individual. O trabalho de vida prática, por meio de exercícios de gentileza e cortesia, por exemplo, desenvolve na criança a capacidade de olhar o próximo, de criar vínculos, de ser gentil e cordial, de sensibilizar-se. Esse exercício, ao longo do tempo, cria laços afetivos, constrói relações duradouras, resgata o divino no humano. Portanto, desenvolve na criança o senso de permanência, de certa estabilidade, em um mundo no qual vigoram as relações efêmeras e passageiras. O trabalho de vida prática cria a oportunidade de desenvolver relações duradouras.

O ser humano, um ser social

Além disso, é importante lembrar que o ser humano é um ser gregário. Do início ao fim de sua vida, vive em comunidade, em relação com seus pares. Como afirma Leonardo Boff, "no princípio estava a comunhão dos Três e não a solidão do Uno". Portanto, desenvolver nas crianças a possibilidade de estabelecer relações sociais pautadas na gentileza, no respeito mútuo, possibilita o resgate do que temos de mais humano: o cuidado, a amorosidade e a generosidade.

A Transcendência na imanência

Ainda nesse sentido, relacionado ao aspecto humano e Transcendente, J. B. Libanio nos aponta, metaforicamente, o ser humano similar a uma casa de três andares. Em cada andar temos algumas janelas que precisam ser desenvolvidas. No primeiro andar estão os cinco sentidos, presentes não só nos humanos, mas também nos animais. Os sentidos percebem e absorvem as informações do mundo que nos cerca. É o que Montessori chama de "mente absorvente". Nesse nível a criança age utilizando os sentidos que já têm disponíveis, com predomínio dos aspectos fisiológicos.
Porém, cabe ao processo de educação, fazer com que a criança evolua, desenvolvendo o segundo andar da casa, onde estão os aspectos exclusivamente humanos, aprendidos. Aqui se desenvolve a ética (o bem), a filosofia (a verdade), a estética (a beleza), a religião (o sentido), aspectos específicos da imanência. Por fim, é o terceiro andar, com a janela do amor, responsável por fazer a ligação da Transcendência com nossa imanência. Todo ato que vem permeado pelo amor, nos lembra a presença do Divino em nosso ser e o nosso elo de ligação com o Criador e com o próximo. 

Método Montessori, possibilidade de formar cidadãos conscientes.

Portanto, trabalhar com exercícios de vida prática, que vão desde o aparentemente simples exercício de versar líquidos até o desenvolvimento de atitudes de graça e cortesia, cria a possibilidade  da criança imergir plenamente na atividade, desenvolvendo a concentração, o silêncio interior e o controle motor.
O que é premente no mundo atual, tão cheio de conflitos, intolerância e violência? Certamente o planeta pede a presença de pessoas conscientes, capazes de perceber o próximo como uma alteridade, que merece ser respeitada, a partir de suas características específicas e singulares. O que os exercícios de vida prática e a proposta Montessoriana propõem senão o desenvolvimento de pessoas conscientes, responsáveis e, acima de tudo, seres de cuidado consigo, com o próximo e com o ambiente? Sim, é nessa perspectiva que Montessori percebe cada criança como uma verdadeira alteridade e seu método como um meio para desenvolver pessoas que transformam o tempo cronológico (crónos) em um tempo vivido na sua plenitude (kairós).

quarta-feira, 6 de abril de 2016

O papel do professor, a disciplina e liberdade no método montessoriano

No último encontro ainda continuamos na discussão a respeito do capítulo do ambiente montessoriano. Desta vez, contemplamos os itens: professor, disciplina e liberdade. Ao conversarmos vimos que tudo é interligado, que os itens se completam. A disciplina, no método Montessori, parte da liberdade a qual leva a criança ao conhecimento de si mesma, do outro e do ambiente em que está inserida. Para que um aluno desenvolva a disciplina precisa que esta torne-se um hábito e que chegue ao ponto de não depender da supervisão de um adulto. Ela deve ser compreendida e internalizada pela criança de forma que sua prática aconteça naturalmente e com autonomia. Entende-se que a disciplina não é algo rígido. Ela está ligada diretamente à liberdade. Cabe ao professor observar o aluno, entrever os acontecimentos para que possa intervir quando necessário, de forma discreta, auxiliando no desenvolvimento da disciplina do educando. A autora enfatiza que uma pessoa disciplinada é
um indivíduo que é senhor de si mesmo e, em decorrência pode dispor de si ou seguir uma regra da vida (p.45)
Quando a criança desenvolve a disciplina, ela não conserva um silêncio artificial, de fora para dentro, longe da imobilidade. Ela faz com que a criança saia de um momento passivo e torne-se ativa, com responsabilidade. Montessori destaca que a liberdade é uma condição favorável ao desenvolvimento da criança. Ela auxiliará no desenvolvimento da autonomia. A liberdade permite a iniciativa útil e os limites. O método montessoriano tem como um dos eixos principais a educação para a liberdade, porém Montessori enfatiza que também há, nesta liberdade o interesse coletivo e as observações do professor, ou da mestra, como ela fala. Ao ir de encontro com à liberdade, a criança passa a se manifestar espontaneamente, revelando sua própria natureza. Para Montessori,
A vida se manifesta, a vida cria, a vida floresce e ela se mantém dentro de limites e de leis irreprimíveis (p.57)
. A educação precisa trabalhar a liberdade, pois esta liberta a criança dos obstáculos que a impedem de se desenvolver. Neste momento cabe ao professor a correção dos erros, estudando e apontando as necessidades específicas de cada aluno. O professor tem um papel fundamental no método Montessori. Como observador e mediador, ele não deve ser autoritário, invasivo, mas deve ser presente. Cabe ao professor preparar o ambiente; observar os fenômenos naturais que ali acontecem; ser paciente; ter curiosidade científica; ter respeito aos fenômenos observados; intervir, sempre que preciso;conduzir a criança à independência; ajudar a criança a orientar-se diante da diversidade de materiais, assim como compenetrar-se do seu uso específico; possibilitar a criança na livre escolha.
Eis o ponto de partida indispensável a toda disciplina : e também o período mais cansativo para a mestra. A primeira noção que as crianças devem adquirir em vista a uma disciplina ativa, é a noção do bem e mal. E é dever da educadora impedir que a criança confunda bondade com imobilidade, maldade com atividade;[...] Nosso objetivo é disciplinar a atividade, e não: imobilizar a criança, ou torná-la passiva. (p. , 50)
Entendemos, por meio das reflexões e discussões, que no momento atual, trabalhar com a liberdade torna-se , de modo geral, mais complicado. No cotidiano educacional, notamos alguns alunos muito dependentes, esperando sempre o comando externo para executar esta ou aquela atividade. Sendo assim, é um grande desafio para o professor montessoriano, sendo necessária a parceria com a família para que a criança possa se tornar autônoma, e assim saber agir com liberdade.

sábado, 19 de março de 2016

A relação entre o ambiente e o desenvolvimento da vida interior

O ambiente externo interfere no "ambiente" interno. É importante lembrar o quanto  um ambiente organizado, limpo e livre de excesso de estímulos auxilia a criança a desenvolver o silêncio interior e uma tranquilidade que surge a partir da interação entre o ambiente simples e organizado e sua vida interior.

sexta-feira, 18 de março de 2016

Ambiente Montessoriano

Hoje faremos a reflexão a respeito do ambiente montessoriano. Foi um capítulo denso, importante, portanto falaremos em partes...
O ambiente refere-se ao conjunto das coisas que a criança pode escolher livremente e manusear à saciedade, de acordo com suas tendências e impulsos de atividade. (MONTESSORI, p. 59, 1965)
Ao falar do ambiente, Montessori enfatiza que este deve possibilitar a liberdade de expressão e a manifestação das características naturais da criança. Para isso, é preciso que o professor prepare o ambiente previamente de acordo com as atividades planejadas e com as características naturais (idade e interesse) das crianças. O mobiliário deve ser adequado ao tamanho e peso dos infantes, de maneira a possibilitar seu manuseio. Diferente do ambiente de uma escola tradicional, a sala montessoriana inclui plantas, animais, quadros sacros e de família, fazendo com que cada aluno e aluna tenha a possibilidade de apreciar o belo. Além destes itens citados, Montessori indica que existam mobiliários semelhantes àqueles presentes em uma casa, tais como: sofá, pia, poltrona, estantes, entre outros. Para a autora, um ambiente bem preparado que possibilite a liberdade de escolha, permite que o professor observe o interesse de seus alunos, a maneira com que eles lidam com a liberdade de escolha, assim como as habilidades e dificuldades que possam se manifestar.

segunda-feira, 14 de março de 2016

1o e 2o Encontros

Iniciamos nossos encontros no dia 3 de março de 2016. Inicialmente os componentes fizeram as apresentações. Colocamos os objetivos do grupo e como será o funcionamento. Fizemos as considerações da leitura a respeito das Considerações Críticas, do livro Pedagogia Científica, da Maria Montessori. Para a autora o professor é um cientista, aquele que vai ao ambiente, observa e pesquisa. Sua formação deve priorizar a observação, o olhar atento. Ao falar da recompensa e punição, Montessori diz que a escola deve promover um ambiente diferente, que forme satisfação de conquista. Seu método trouxe um novo olhar à Ciência da Pedagogia, sendo o centro do processo o aluno com o professor mediando suas atividades. Ao conversarmos a respeito dos escritos da autora fizemos vários relatos da experiência prática da escola, enfatizando a importância de fazer a reflexão do dia a dia, do olhar, da presença e do amor. No dia 10 de março fizemos o 2o encontro, discutindo o capítulo Antecedentes do método. Neste capítulo vimos que o trabalho de Montessori surge a partir da obervação e está fundamentado nos estudos de Itard e Séguin. Enfatizou-se a importância da preparação do professor para trabalhar nesta metodologia. Juliana trouxe como ilustração a seguinte frase do Rousseau: " " Nossa mania professoral e pendatesca é de sempre ensinar as crianças o que aprenderiam muito melhor por si mesmas, e esquecer o que só nós lhes poderíamos ensinar. Haverá algo mais tolo do que o trabalho que temos para ensiná-las a andar, como se tivéssemos visto alguém que, por descuido, da ama-de-leite, não soubesse andar quando adulto? Pelo contrário,, quantas pessoas vemos que andam mal por toda a vida , porque lhes ensinaram mal a andar!" Fizemos um comparativo com o dizer da Montessori: " Cremos que as crianças são seres semelhantes a fantoches inanimados: lavamo-las e alimentamo-las assim como elas lavam e dão de comer às suas bonecas. Não nos damos conta de que a criança só não age porque não sabe agir; ela deve agir, e o nosso dever para com ela é, indubitavelmente ajudá-la na conquista de atos úteis. A mãe que dá de comer à criança sem fazer o menor esforço para que ela aprenda a segurar a colher e levá-la à boca, ou que a convide a reparar no seu próprio comer, não é boa mãe. Subestima a dignidade humana de seu filho; trata-se como um fantoche sendo que ele é uma criatura humana. Ensinar uma criança a comer, lavar-se, vestir-se, é um trabalho mais longo e difícil, que requer muito mais paciência que alimentá-la, lavá-la e vesti-la". A autora dá pistas da educação das crianças pequenas, auxiliando no desenvolvimento da autonomia. Comentamos novamente sobre a importância do preparo do professor para trabalhar nesta metodologia, do observar a criança no seu cotidiano. Os dados colhisdos na observação espontânea da criança pode ajudar o professor e o desenvolvimento do aluno. Outro aspecto relevante ao método é a intuição. Esta sempre deve ser levada em conta e o ponto de partida para a observação e pesquisa. Foram dois encontros importantes para as reflexões, fazendo sempre a relação com a prática pedagógica.